Suicídio, Mídia e Epidemia

Versão britânica do jornal “Metro” de 13 de Agosto de 2014

“Revelada a agonia de suas horas finais” é o que promete a versão britânica do “Metro” de 13 de agosto de 2014, jornal gratuito que circula em diversas cidades do mundo, disponíveis em espaços públicos e estações de transportes coletivos. Nas páginas posteriores, o jornalista descreve minuciosamente os passos do ator em direção à retirada de sua própria vida. Este é um entre incontáveis exemplos de como alguns veículos de comunicação social publicam notícias que podem aumentar o risco de epidemia de atos suicidas. Mas como seria possível uma epidemia de suicídios?

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“O gato de Alice, ou algumas razões pelas quais poderíamos ser mais efetivos na difusão da Análise do Comportamento”

Prólogo

Em 2007 estive na VIII Jornada Mineira de Ciência do Comportamento ocorrida na FAFICH (UFMG) entre os dias 1 e 2 de junho. Durante o evento tive a oportunidade de assistir uma conferência sobre disseminação da Análise do Comportamento apresentada pelo Professor João Bosco Jardim, pesquisador do Centro de Pesquisas René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz, profissional de grande importância para a Análise do Comportamento no Brasil. No final de 2013 o encontrei em Londres e tivemos oportunidade de conversar sobre interdisciplinaridade, epidemiologia, saúde pública, e também sobre a expansão da Análise do Comportamento e sua adesão por outras ciências. Após lembrar-me de sua conferência em 2007, o Professor João autorizou a publicação de seu texto aqui no site Comportamento & Sociedade, motivo pelo qual o agradeço imensamente. Passados sete anos após ser proferido em um evento científico, o texto a seguir mantém sua grande relevância para a comunidade analítico-comportamental brasileira, uma vez que traz reflexões imprescindíveis ao processo de expansão da ciência do comportamento e sua adesão por outras áreas do conhecimento.

Para ter acesso ao texto na versão em pdf, clique aqui!

Encontro com o Professor João em Londres, Dezembro de 2013.

Encontro com o Professor João em Londres, Dezembro de 2013.

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Ebola and Applied Cultural Evolution—You Can Help

Ebola e Evolução Cultural Aplicada.

Social Evolution Forum

A colleague of mine named Beate Ebert started a Nongovernmental Organization (NGO) called Commit and Act in Sierra Leone. They run a psychosocial center in Bo, a city in the south of Sierra Leone, led by a local counselor, Hannah Bockarie. Bo is a high risk area of the Ebola epidemic, where some of the first cases showed up. One reason that the disease is so deadly is that it creates a perfect storm of cultural confusion. Here is how Beate described it to me in a recent email message.

Ebola mostly spreads because of local habits like washing and kissing dead bodies. People don’t get the information needed. They avoid hospitals as most people with Ebola die there. Doctors and nurses look like monsters in their prevention suits when they come to villages. The inhabitants are scared and think the health workers bring the disease. People circulate text messages…

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Darwin e Skinner I: Anotações sobre variação

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Polêmicos, controversos, divisores de águas. Perseguidos, rechaçados e muito criticados, Darwin e Skinner possuem várias comunalidades. Um é considerado por muitos o assassino de deus na biologia. O outro, classificado como o frio detonador da mente humana na psicologia. Ao proporem a exclusão das explicações que estabelecem instâncias imateriais como responsáveis pela origem e manutenção da vida e do comportamento, esses cientistas abriram portas para o desenvolvimento de avançados programas de pesquisa que mais tarde trariam grandes benefícios para as ciências naturais, médicas e humanas.

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Qual o problema em assistir pornografia?

Recentemente um colega analista do comportamento publicou este vídeo, uma palestra no TEDx realizado na Universidade de Glasgow, Escócia. O palestrante, professor Gary Wilson, é um importante cientista, estudioso do tema. Sua exposição, ainda que breve, aponta os impactos da pornografia sobre o cérebro e, obviamente, sobre o comportamento. Vídeo importante e merece atenção! Confira abaixo:

João Cláudio Todorov: O compartilhamento de uma Trajetória

Tiago Carlos Zortea
Núcleo de Estudos em Análise do Comportamento do Espírito Santo

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Em agosto de 2010, tive a histórica oportunidade de conversar com o Professor João Cláudio Todorov em nome do NEAC. Dada a importância desta entrevista, não somente para mim, mas creio que para a Análise do Comportamento no Brasil, julguei relevante publicá-la no Comportamento & Sociedade. Agradeço aos amigos do NEAC que tão gentilmente concederam a permissão da publicação deste encontro com alguém tão importante e ao mesmo tempo tão simpático e atencioso que é o Professor João Cláudio.

No dia 27 de agosto de 2010 (coincidentemente dia do Psicólogo) esteve em Vitória, na Universidade Federal do Espírito Santo, o Professor João Cláudio Todorov, PhD, para uma banca de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP). Aproveitando esta grande oportunidade, o Núcleo de Estudos em Análise do Comportamento do Espírito Santo (NEAC-ES) solicitou ao Professor João Cláudio uma entrevista exclusiva, pedido este aceito por ele com tamanha gentileza.

Neac todorov [mod]

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Para além de fronteiras sociais: Ética, trabalho e solidariedade

Alexandre Dittrich

Ficaria feliz se você tirasse uns três minutos para ler essa reportagem. Há várias lições importantes nela, e acho que algumas delas falam ao espírito natalino.

Jack Andraka, 16 anos, chamou a atenção por ter criado um diagnóstico inovador para o câncer de pâncreas. Ele deu um pequeno depoimento a jornalistas brasileiros. O rapaz vem sendo constantemente chamado para palestras ao redor do mundo, “quase sempre falando sobre inovação e a importância de se estimular o interesse científico nas escolas”. E faz uma pergunta aos brasileiros: “Encontrei vários estudantes brasileiros nas feiras de que participei. Eles têm bastante apoio por lá?”. Temo que a resposta seja vergonhosa para os brasileiros.

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Autocontrole

Tourinho_modf“Na Análise do Comportamento, o autocontrole recebe um tratamento diverso. Não se trata de “conter emoções”, mas de responder sob controle de consequências com maior atraso e maior magnitude, quando esse responder concorre com outro(s) (impulsivos) mantido(s) por consequências imediatas de menor magnitude.”

(Tourinho, “Subjetividade e Relações Comportamentais”, 2009, p. 176).

Darwin Terapeuta: Pode a Teoria da Evolução entrar no consultório?

Há uns tempos falamos sobre os níveis de análise para a explicação do comportamento [1]. Cada um desses níveis é dedicado ao estudo de uma parte específica do comportamento, apesar de não ser tão fácil assim separar as variáveis que controlam nossas ações. Mas os esforços em estudar esses diferentes tipos de controle tem sido consideravelmente eficazes. A filogênese constitui-se como nível de seleção de propriedades anátomo-fisiológicas, determinadas respostas do organismo – reflexos incondicionados – a sensibilidade às consequências de comportamentos operantes e a sensibilidade diferenciada a eventos ambientais (Tourinho, Teixeira & Maciel, 2000). Esse tipo de característica fisiológica (denominada por alguns evolucionistas de “causas próximas”) só existe devido às contingências de adaptação evolutiva cujas pressões ambientais (ao longo de milhões de anos) selecionaram tal fisiologia em função da sobrevivência e da reprodução (causas últimas) (Izar, 2009; Wilson, 2008).

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Um super herói! Cadeirante?

Depois de me tornar adulto e estudando um pouco mais, passei a não gostar de super heróis, mas num sentido filosófico, existencial. De modo geral, super heróis são praticamente perfeitos. Por mais que tenham seus inimigos ferozes e alguma fraqueza, no final (em geral, vai…) sempre triunfam! Como prefiro a imperfeição à perfeição, o natural ao artificial, o cotidiano ao ideal, descartei os super heróis há um tempo da minha lista de Hobbies.

Entretanto, um grande amigo, cartunista fenomenal e muito inteligente me fez repensar a concepção de super herói com uma de suas criações mais geniais: um super herói cadeirante! Wellington conseguiu revirar minha cabeça com o conceito que criara.

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“Gazoo” é exatamente a junção daquilo que considero importantíssimo dos heróis – a coragem, a determinação e a luta pelo que quer – ao que julgo elementar da vida humana – as dificuldades do cotidiano, a ideia de que não há perfeição, mas sim diferenças. E para ficar melhor ainda, Gazoo é super engraçado!

É uma inspiração para todo mundo. Não somente para pessoas que vivem com algum tipo de dificuldade física, Gazoo mostra que viver não é fácil. Mas ao mesmo tempo suas atitudes levantam a questão: o que fazer? Paralisar? De jeito nenhum! Suas dificuldades e a forma como Gazoo lida com elas nos incentivam a olhar a vida de um modo mais leve, criativo, e por que não engraçado?

Gazoo 1

Se recomendo Gazoo? Acho que “recomendar” é uma expressão fraca demais para algo tão sensacional! Gazoo não é só um super herói distinto dos outros, mas um incentivo para quem quer viver no mundo real! É isso: um personagem fictício mostrando como pode ser mais leve o desafio de viver em meio às intempéries que nossas trajetórias apresentam!

Curta aqui a Fan Page do Gazoo no Facebook e ajude a divulgar este trabalho tão legal!

Notas sobre Repertório Comportamental*

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Quero discorrer sobre o que considero um dos temas mais importantes da psicologia: repertório comportamental, ou repertório de comportamentos. Começo com a compreensão de comportamento. Este termo, apesar de ser popularmente utilizado, se constitui aqui como conceito fundamental e, portanto, bastante diferente daquele difundido no senso comum. Em 1957, B. F. Skinner abre seu livro “O comportamento verbal” com a frase que se tornaria uma das mais mencionadas na ciência do comportamento: “Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação” (1978/1957, p.15). Esta declaração pode ser entendida como uma das mais sintéticas para a compreensão do conceito de comportamento: os processos de relação do homem com o mundo. Micheletto e Sério (1993) esmiúçam a frase de Skinner: Continue reading

Continuar vivendo…

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“Não se trata de não sofrer – pois então o suicídio sempre seria a melhor solução. Trata-se de viver, o mais possível, o melhor possível: trata-se de ser feliz, tanto quanto se conseguir, e, claro, nunca se é feliz senão aproximadamente. Esse aproximadamente, todavia, não é alguma coisa, nem tudo. Quem chamaria de “felicidade” um bem-estar que só fosse alimentado por drogas ou ilusões? Que elas possam ser necessárias, por vezes, tristemente necessárias, está bastante claro. Que possam bastar, isso é o que não se poderia aceitar. Só há verdadeira felicidade numa relação feliz com a verdade. Feliz? Quer dizer amante, se entendermos por amor, como faz Spinoza, a alegria que nas daquilo que conhecemos. É o amor verdadeiro ao verdadeiro, e o único conteúdo da sabedoria. A verdadeira vida não está alhures, a verdadeira vida não está ausente: a verdadeira vida é a vida verdadeira.”

André Conte-Sponville, 1997, p. 75 – “Bom dia, Angústia!”

Agressividade Humana: Contingências, Filogênese e Evolução*

Memorial Holodomor em Kiev (Capital da Ukrânia)

Memorial Holodomor em Kiev (Capital da Ukrânia)

No inverno de 1932 todos os suprimentos alimentícios na Ucrânia foram confiscados por mando de Stalin e um grande cordão foi criado em torno do país para que ninguém emigrasse. O ditador comunista havia determinado a coletivização das terras ucranianas (um dos maiores produtores de trigo do mundo), e o confisco dos alimentos foi uma reação stalinista à resistência dos camponeses. A fome foi tão grande que os ucranianos foram morrendo vagarosamente em suas próprias casas já que não possuíam mais alimentos e eram impedidos de produzi-los. Neste mesmo ano, a NKVD (“Comissariado do Povo para Assuntos Internos” da URSS) invadiu as casas das pessoas para coletar os corpos dos mortos. Os policiais recebiam 200g de pão por cada corpo que entregavam e, para isto, entravam nas casas e perguntavam “onde estão seus mortos?”. Muitos foram enterrados vivos. Alguns sobreviventes dizem que viam a terra se mexer. Foram documentados até mesmo casos de antropofagia. Em um ano, aproximadamente dez milhões de pessoas morreram de fome na Ucrânia. Este genocídio ficou conhecido como Holodomor, termo que deriva da expressão ucraniana “Морити голодом”, que significa “matar pela fome”. Continue reading

“O que os vizinhos vão pensar?”

2012-12-25 00.04.24

Nossa “vida psicológica” é construída ao longo de nossa trajetória, e ela se constitui no cotidiano, na decorrer corriqueiro da rotina, a qual é recheada de interações com as pessoas, com as coisas, com o mundo. Aquilo que aprendemos ouvindo de nossos pais ou responsáveis também possui um peso grande na influência de nossos comportamentos.

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