O que acontece quando o suicídio é sua área de atuação…

Image: Huffpost LifeStyle UK.

Você lê, estuda sobre suicídio todos os dias?
– Sim.
Nossa! Mas esse é um tema muito pesado. Isso não te afeta?

[Demorei para responder. A pergunta me paralisou. Foi profunda demais.]

– Sim, me afeta. A psicologia clínica em si já era algo que me afetara antes. Conviver com o sofrimento do outro, entender o porquê de sua dor, e das dificuldades tão grandes de sair do labirinto de espinhos são eventos que já impactavam. Mas quando me aprofundo nas razões de disparam o desejo de morrer, de dar fim à própria vida deliberadamente, a percepção disso que chamamos de vida muda, absolutamente.

Coisas que antes a mim tinham apenas função de brincadeira ganharam outros sentidos. Expressões do meu vocabulário, ideias arraigadas de uma criação conservadora, críticas gratuitas com base em julgamentos absolutamente arbitrários… estes elementos que sempre foram “normais” no meu linguajar e modo de pensar, agora vejo que podem ser contexto para o desencadeamento de ideações suicidas em pessoas presas pelo sofrimento. O choque foi tão intenso quando me deparei com isto, que não me vi um amolador de facas, mas alguém que já estava com as mãos sujas de sangue.

Nossa percepção sobre o mundo é sempre enviesada. Mas quando vimos de uma cultura de expressão religiosa extremamente forte, o moralismo extrapola as paredes das catedrais, basílicas, e templos de salomão, invadindo a forma de pensar até mesmo daqueles que se identificam ateus ou não religiosos. A “santidade” da igreja se torna “a boa moral” do cidadão de bem. Os julgamentos arbitrários cerimoniais apenas trocam os rótulos, mas sua função permanece. Preconceitos enrustidos de ‘opinião’. Função desqualificadora com topografia de ‘ponto de vista’.

“Ele se veste de modo esquisito”.
“Eles não querem ter filhos”.
“Ele não quer casar”.
“Ela é prostituta”.
“Ele usa drogas”.
“Ela é lésbica”.
“Ele é bissexual”.
“Eles adoram a lua e sol. Rezam para as estrelas”.
“Ela tem o corpo cheio de tatuagens”.
“Ele é gordo”.
“Ela tem o braço cheio de cicatrizes de autolesão”.
“Ele ouve vozes”.
“Eles são adeptos do tal poliamor”.
“Ele é gigolo”.
“Ela tem duas vidas”.
“Eles são macumbeiros”.
“Ele é gay”.
“Eles fumam maconha”.
“Ele tentou suicídio três vezes”.
“Ela terminou e voltou com ele”.
“Eles se divorciaram”.
“Ela decidiu romper o noivado”.
“Eles frequentam orgias”.
“Ele demorou 10 anos para concluir a faculdade”.
“Ela ainda mora com os pais, nessa idade”.
“Ele é homem, se mostrar fraqueza é porque é veado”.
“Ela é bem mais velha que ele para ser namorada”.
“Ele bebe demais da conta”.

E outros infinitos julgamentos, infinitos, sobre os quais não fazemos ideia de como atingem aqueles que sofrem. É triste ver psicólogos que na frente da audiência profissional discursam eloquentemente contra tais moralismos perniciosos, e quando entre amigos não desperdiçam tempo ao tecer comentários que contradizem profundamente suas pronúncias profissionais.

Não é possível ser psicólogo e não se modificar. É impossível trabalhar com pessoas que querem dar fim à própria vida e permanecer o mesmo. As prioridades mudam. O olhar é outro. O ouvido é outro. Enxerga-se o que antes não podia ser visto. Alguém disse “a palavra mata”, e não discordo totalmente desta premissa. O jargão “seja gentil, pois cada pessoa que você encontra está lutando em uma batalha sobre a qual você não sabe nada” nunca foi tão urgente e necessário.

O suicídio de muita gente é disparado por opiniões como as que você tem, ainda que elas digam mais sobre você do que sobre aqueles para os quais você as direciona.

Não há como ver gente se matar e ficar intacto.

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4 thoughts on “O que acontece quando o suicídio é sua área de atuação…

  1. O que ouço muito é que se está deprimido vá a um asilo,orfanato, a um hospital como se isso fosse curar a pessoa, achando que a dor que ela tem é menor, e vai ficar com vergonha e assim se curar da depressão….muito simplista!

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