A internet como praça pública da inquisição contemporânea

Image source: CA Technologies Blog

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By Gabriel Vieira Mandarino e Tiago Zortea.

Quando lemos um texto ou assistimos um filme cujo conteúdo traz elementos da santa inquisição nos sentimos horrizados. É absurdo pensar que (muitas) pessoas foram severamente punidas e mortas em nome da moralidade religiosamente instituida durante a idade média. A obra de Edgar Alan Poe “O poço e o pêndulo” (transformada em filme em 1991) mostra cenas aterrorizantes daquilo que aconteceu na “idade das trevas”. Geralmente culpamos (em parte com razão) a Igreja Católica por tais eventos. Mas vale também lembrar o papel do povo nas praças públicas. Conversas pelos corredores sobre a vida alheia, denúnicas ao tribunal da santa inquisição, a assistência massiva às punições e mortes em praças públicas exaltavam a soberania da instituição religiosa e afirmavam os valores morais ali determinados. Talvez esta não seja uma realidade distante ou já não mais inexistente. Uma análise um pouco mais minuciosa sobre alguns acontecimentos recentes na internet talvez nos mostraria uma nova praça pública, com novos sistemas de punição e com poder de alcance incomparavelmente maior.

A democratização da informação e a revolução provocada pela internet trouxe muitas vantagens. Mas com ela, outros efeitos perniciosos surgiram. Nas redes sociais são abertamente expostas e humilhadas pessoas que rompem com determinada moral convencionalmente aceita. Tal qual à época da Santa Inquisição, descumprir uma regra moral é ainda condição necessária, mas não suficiente, para ser publicamente humilhado/exposto: é necessário também que todos tenham conhecimento da imoralidade. Perceba que nem é mais necessária uma instituição religiosa opressora para praticar a condenação. E talvez isso seja o mais espantoso, perceber a unanimidade da condenação pública em um ambiente descentralizado, no qual não há um agente explícito que coordene as opiniões ou as ações das pessoas. O povo assumiu o papel da Igreja como agencia que supostamente guarda os bons costumes e pune os desviantes.

Nesse aspecto, podem-se notar similaridades entre as práticas públicas contemporâneas e aquilo que se fazia na idade média no que diz respeito às funções de tais práticas exercidas pelo povo: quando se condena o pecado alheio, (i) transmite-se publicamente a imagem de santidade, (ii) isola-se daquele que praticou o ato condenável, (iii) aproxima-se da instituição de poder, (iv) prova ao outros [e à instituição] em que posição social se encontra, evidenciando publicamente seu merecimento de respeito como guardião da boa moral, e, obviamente, (v) esquiva-se de uma potencial punição oriunda da instituição. A internet também se tornou uma praça pública onde se pune (pelo compartilhamento e pelos comentários) aqueles que cometeram algum tipo de erro moral. Grupos do Whatsapp, por exemplo, não demoram no envio de videos, fotos, e printscreens cujo conteúdo guarda questões da vida privada das pessoas. Infidelidade conjugal, conversas particulares, fotos pessoais e qualquer outro tipo de material ou evento registrado que possa denotar alguma desobediência à determinados valores morais se torna potencialmente “compartilhável”.

É obvio que qualquer pessoa pode sentir curiosidade sobre o que acontece na vida do outro. Esta é uma característica humana e sua existência não pode ser negligenciada. A grande questão é quando a curiosidade ultrapassa os limites da empatia e invade um território não autorizado, um terreno que é privado. E aí o problema é duplo: a violação do acesso ao que é privado, tornado-o público a despeito de qualquer consentimento, e a posterior condenação impiedosa daquilo ao qual se teve acesso. “Hipocrisia nada, a vadia tem mesmo é que se fuder”, disse um rapaz que compartilhou um video nas redes sociais de um evento privado ocorrido com pessoas que ele sequer conhece.

No moralismo não há espaço para o erro. Parte-se do pressuposto de que as regras morais serão eternamente obedecidas. A ilusão alimentada por esta crença faz do erro algo bem maior do que ele talvez seja. O tamanho da punição para aqueles que falham no cumprimento da moral geralmente acompanha a intensidade da revolta provocada pelo erro. Talvez um dos grandes problemas seja exatamente esta ilusão: ninguém está propenso a errar, ninguém vai cair. Ou melhor: “eu não estou propenso a errar. Eu não vou cair”. A pretensão de nos considerarmos moralmente irrepreensíveis parece diminuir a nossa sensibilidade para com os erros alheios e o que suas consequências podem lhe causar. Sob controle do moralismo, quando o outro erra estamos menos preocupados com o seu bem-estar. 

É essa pretensão, no entanto, que parece autorizar as pessoas a estabelecerem as punições que lhe pareçam mais adequadas, sem se importarem com a dimensão das consequências para o punido: Quantas pessoas recebem o video? Quantas pessoas o compartilham? Quantas pessoas tecem opiniões sobre o video? O que tais opiniões produzem? E quanto à vida das pessoas envolvidas no video? O que acontece depois que o evento privado se torna notícia? São perguntas difíceis de serem prontamente respondidas, mas que provocam ao menos uma refexão sobre qual é a função dos “jornalistas de redes sociais” e dos “juízes das infrações morais alheias”. Quando julgamos, supostamente nos assentamos num patamar superior e intocável: alimentamos a ilusão de algo que definitivamente não existe. Investimos na aluscinação de nossa evolução moral. Reforçamos uma imagem falaciosa sobre nós mesmos: negamos que somos humanos e passíveis de ocupar a posição de réu. Nos tormamos deuses! Alguém um dia disse: “quem estiver sem nenhum delito lance a primeira pedra”. Empatia é a capacidade se colocar no lugar do outro. Empatia envolve auto-reflexão e a tentativa de sentir um pouco daquilo que o outro sente. É esforçar-se na tarefa de compreender o contexto e os sentimentos que envolvem as ações alheias, ainda que elas contrariem, em primeira instância, o que acreditamos. Este é o esforço no qual precisamos nos engajar. Amanhã o réu pode ser um de nós.

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