“Operants” 2015(1) traz polêmica sobre política e o envolvimento da Análise do Comportamento

“Operants” é nome do boletim publicado pela B. F. Skinner Foundation [Fundação B. F. Skinner] dirigido pela filha do bom velhinho – Julie Skinner Vargas. Publicado desde 2007, o material é distribuído gratuitamente para aqueles que subscrevem-se no website da fundação. Algumas das características interessantes do Operants incluem tópicos sobre a internacionalização da Análise do Comportamento, demonstrada através de entrevistas e relatos sobre a área nas mais diversas partes do mundo e, como consequência, a tradução do material para vários idiomas. A língua portuguesa, obviamente, está no meio!

O título do primeiro volume de 2015 é “Hoje nossos correspondentes estão delineando um novo mada da influência de Skinner ao redor do mundo” e traz na capa uma lista de países onde Skinner esteve e ministrou palestras, tais como Irlanda, Escócia, Inglaterra (cerca de 40 vezes), Noruega, Suécia, França (lecionou em francês), Alemanha (lecionou em Alemão – minha nossa, Skinner falava alemão?!), Suíça (lecionou em francês), Tchecoslováquia, Rússia (três vezes e na televisão), Venezuela e México. Enfim, o volume traz entrevistas, reportagens dos correspondentes em diversas partes do mundo, mas… há algo bastante interessante também: um ensaio intitulado “Os discursos políticos da Análise do Comportamento” escrito pelo professor Carlos Eduardo Lopes (Universidade Estadual de Maringá). O ensaio está na seção “reflections” e possui tradução para a língua portuguesa.

carlos lopes_operants

No texto, o professor Carlos Eduardo discute sucintamente sobre o conceito de política, e quais as possibilidades de discurso político são possíveis de serem extraídos da obra skinneriana. Dentre eles, Lopes faz destaque a dois, tendo o primeiro a visão do Behaviorismo Radical como tecnocracia. Este discurso “toma Walden II como o principal projeto político do Comportamentalismo Radical” (p.28), no qual “a relação entre leigos e especialistas é conflituosa e hierárquica: o ‘conhecimento’ do leigo não é só diferente do conhecimento do especialista, ele é inferior e, por isso, na tomada de decisão em assuntos políticos, a palavra final, deve ser sempre do especialista (ou do cientista)” (p. 29). Segundo Lopes, o discurso tecnocrata possui um apelo forte no Brasil, dentre vários motivos, pela promessa de substituição da corrupção política pela competência tecnocientífica. Esta seria uma substituição ilusória, uma vez que “tudo se passa como se o cientista fosse completamente isento de preconceitos, preferências, vieses, podendo, por isso, tomar decisões mais acertadas e objetivas do que políticos” (p. 29). Outros problemas desta visão também são discutidos.

Uma segunda perspectiva, o Behaviorismo Radical como micropolítica, aproxima a ciência do comportamento a uma proposta foucaultiana de política. A partir da visão skinneriana de agências de controle e da análise das relações controlador-controlado, o professor Carlos Eduardo ressalta os problemas envolvidos no poder institucional e na possível desconfiança com a qual deveria ser visto: “ele funciona tentando desviar nosso olhar das fontes de controle (criando uma ‘cortina de fumaça’)” (p. 31). Assim, uma perspectiva comportamental micropolítica seria mais compatível com as discussões políticas contemporâneas em que “as pessoas de uma comunidade, em que políticas públicas estão sendo planejadas, não seriam apenas ouvidas, mas instrumentalizadas para apresentar suas próprias demandas dispensando a mediação de um ‘porta-voz'” (p. 32), por exemplo. “É um discurso que visa o enfraquecimento das agências controladoras e a queda do prestígio do especialista. Enfim, trata-se de pensar a política nas relações interpessoais concretas e contextualizadas em realidades locais”, afirma Lopez.

A parte final do texto é uma SENHORA provocação em nosso modo de fazer análise do comportamento: não vou dizer! Não vou dizer, para que você corra lá e leia! O ensaio é curto, mas profundo. Por mais divergências (ou não!) que possa produzir, o texto traz uma visão política alternativa e lança luz sobre possíveis relações comportamentais “escondidas” nas interações políticas.

O ensaio é comentado pelo professor Jerome D. Ulman.

 

 

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