Sono e ideações suicidas

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By Tiago Zortea.

Quando se fala em fatores de risco para o comportamento suicida, pensamos em qualquer variável que possa aumentar as chances de alguém pensar em tirar a própria vida. Fatores de risco em si são muito pobres em predizer a ocorrência de pensamentos e comportamentos suicidas – por isso a necessidade de modelos explicativos que orientem a nossa prática. Quando avaliamos um paciente, é preciso investigar o máximo sobre quais são esses fatores de risco idiossincráticos e como eles interagem. A duração e a qualidade do sono são alguns deles.

Uma grande amiga da Universidade de Manchester, Donna Littlewood, acaba de terminar seu PhD investigando as relações entre sono e ideação suicida. Quando trabalhamos nesta área, percebemos que a grande maioria dos nossos pacientes/usuários de serviço de saúde não querem morrer, mas sim acabar com a dor e com o sofrimento insuportável. (Querer morrer é diferente de querer tirar a própria vida – assunto para outro post!). Uma forma de fugir da situação insuportável utilizada por vários pacientes é dormindo. Para muitos, dormir é uma espécie de morte temporária – uma forma imediata de lidar com o sofrimento. No entanto, para outros, dormir é quase impossível, uma vez que os pensamentos e preocupações estão tão intensos que fica difícil descansar. Ao mesmo tempo, pesadelos também são experiências frequentes para aqueles estão passando por um momento complicado na vida.

Nos vários esforços para entender esta intrincada relação, Donna utilizou diferentes métodos de pesquisa para avaliar como o sono está relacionado à vulnerabilidade para ideações suicidas e vice-versa. Em sua publicação mais recente, ela convidou 51 participantes que sofrem de ideações suicidas para utilizar um relógio de monitoramento do sono por 7 dias (método denominado “Ecological Momentary Assessment”). Ao mesmo tempo, os participantes completavam escalas psicológicas mensurando níveis de ideação suicida, sentimentos de aprisionamento, ansiedade e depressão. Donna encontrou três resultados:

  1. Pacientes que apresentaram baixa qualidade e curta duração do sono demonstraram níveis severos de ideação suicida no dia seguinte.
  2. Não houve resultados significativos que dessem suporte à hipótese da direção oposta: níveis severos de ideação suicida seguidos de uma noite ruim de sono.
  3. A qualidade do sono alterou a relação existente entre sentir-se aprisionado nos problemas da vida (antes de dormir) e pensar em suicídio (na manhã seguinte).
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O gráfico mostra o efeito da qualidade do sono sobre a relação entre sentir-se aprisionado pelos problemas e os níveis de ideação suicida.

Os resultados da pesquisa sugerem que quando as pessoas que sofrem de ideações suicidas apresentam baixa qualidade de sono, os sentimentos e pensamentos de aprisionamento (‘não haver mais saida’) antes de dormir estão associados a pensar ainda mais em suicídio no dia seguinte. Ao mesmo tempo, quando os pacientes reportaram sentimentos-pensamentos de aprisionamento antes de dormir, mas tiveram uma boa noite de sono, eles reportaram uma diminuição na intensidade de seus pensamentos suicidas na manhã seguinte.

Um estudo qualitativo também conduzido por Donna corrobora com os dados encontrados no presente estudo: o sono provê um escape dos problemas, e quando as pessoas não conseguem obter o escape através do sono, eles descrevem um aumento nos níveis de ideação suicida.

Há duas implicações clínicas importanes deste estudo:

  1. Restaurar um sono saudável e também a percepção da qualidade do sono podem ser intervenções relevantes na redução da incidência de ideações suicidas.
  2. O sono pode oferecer um alívio temporário para os problemas, o que pode ser útil junto a intervenções psicológicas que busquem estabelecer resoluções permanentes para o mal-estar psicológico.

Referências:

Littlewood, D. L., Kyle, S. D., Carter, L. A., Peters, S., Pratt, D., & Gooding, P. (2018). Short sleep duration and poor sleep quality predict next-day suicidal ideation: an ecological momentary assessment study. Psychological medicine, 1-9.

Littlewood, D. L., Gooding, P., Kyle, S. D., Pratt, D., & Peters, S. (2016). Understanding the role of sleep in suicide risk: qualitative interview study. BMJ open, 6(8), e012113. DOI: 10.1136/bmjopen-2016-012113

 


Image by  Bekah Russom

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