Suicídio, Mídia e Epidemia

Versão britânica do jornal “Metro” de 13 de Agosto de 2014

“Revelada a agonia de suas horas finais” é o que promete a versão britânica do “Metro” de 13 de agosto de 2014, jornal gratuito que circula em diversas cidades do mundo, disponíveis em espaços públicos e estações de transportes coletivos. Nas páginas posteriores, o jornalista descreve minuciosamente os passos do ator em direção à retirada de sua própria vida. Este é um entre incontáveis exemplos de como alguns veículos de comunicação social publicam notícias que podem aumentar o risco de epidemia de atos suicidas. Mas como seria possível uma epidemia de suicídios?

Atualmente a morte de pessoas por suicídio se caracteriza como um grande problema de saúde pública mundial. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que diariamente 24 pessoas suicidam no Brasil, três mil no mundo e mais de 60 mil tentativas por dia (Botega, 2010). De acordo com publicações recentes do periódico científico “The Lancet Psychiatry” (O’Connor & Nock, 2014), o suicídio ocupa a 14ª posição de causas que lideram o índice de mortes no planeta, responsável por 1,5% do índice total de mortalidade. Apesar de que fatores psicológicos como (1) engajar-se em comportamentos de risco e (2) tomada de decisão podem afetar o risco de outras causas de morte (como problemas cardíacos e câncer, por exemplo), o suicídio talvez seja a causa de morte mais diretamente afetada por fatores psicológicos, uma vez que a pessoa decide conscientemente acabar com a própria vida (O’Connor & Nock, 2014).

Apesar das inúmeras hipóteses e teorias que tentam compreender e explicar o fenômeno, é consenso entre os pesquisadores que o suicídio não pode ser elucidado através da atribuição de um único fator explicativo ou causa (Nock et al., 2008; O’Connor & Nock, 2014). Isto significa que antes de qualquer afirmação prematura, uma análise profunda deve ser conduzida com fins ao levantamento de conclusões que considerem o máximo possível de variáveis relacionadas, a interação entre elas e o índice de influências mútuas dessas variáveis. Estudos que abordam um número menor de fatores são importantes no sentido de comprovar uma relação (não causal) existente com o suicídio ou com ideações suicidas.

Mas retornando à questão inicial: seria possível uma epidemia de suicídio? A resposta inicial é sim. Em 1774, foi publicado em Leipzig (Alemanha) o livro que se tornaria o marco do início do romantismo na literatura internacional intitulado “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do famoso escritor Johann W. von Goethe. A obra apresenta cartas de um jovem apaixonado, impossibilitado de relacionar-se com a mulher amada, comprometida com outro homem. Impedido de resolver a questão, Werther decide dar fim à própria vida. Após o lançamento desta publicação e sua massiva popularização no velho continente, muitos jovens europeus que viviam circunstâncias similares às do personagem cometeram suicídio. Este fenômeno que preocupou as autoridades da época ficou conhecido como “Efeito Werther”. Em uma entrevista concedida ao The Lancet Psychiatry [1], Belinda Jack, professora de literatura e linguagem moderna na Universidade de Oxford (Christ Church College) e de retórica na Universidade de Londres (Gresham College), afirma que a evidência que comprova a influência da obra de Goethe sobre a morte desses jovens está em uma carta escrita pelo próprio autor do livro na qual ele confirma ter sido notificado sobre essas ocorrências. Além disso, há registros de suicídios nos quais os jovens mortos carregavam páginas do livro de Goethe no bolso.

"Os sofrimentos do jovem Werther", publicado em 1774. Foto H.-P.Haack. - Sammlung H.-P.Haack, Antiquariat Dr. Haack Leipzig, Privatbesitz.

“Os sofrimentos do jovem Werther”, publicado em 1774. Foto H.-P.Haack. – Sammlung H.-P.Haack, Antiquariat Dr. Haack Leipzig, Privatbesitz.

Um recente estudo publicado por pesquisadores do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, (Gould, Kleinman, Lake, Forman, & Midle, 2014) mostra a existência de uma forte associação entre a publicação de reportagens em jornais impressos sobre casos de suicídio e o surgimento subsequente de mortes por suicídio entre adolescentes. Os pesquisadores identificaram esses grupos em jovens com idade entre 13 e 20 anos nos Estados Unidos de 1988 a 1996 (anterior ao advento das redes sociais). Buscaram dados sobre todas as mortes por suicídio ocorridas no país (em cidades com até 500 mil habitantes) no período de tempo mencionado e analisaram os jornais de maior circulação das localidades contendo matérias relacionadas ao suicídio, as quais sugeriam que uma pessoa havia tirado a própria vida.

Os resultados indicaram que quanto maior o número de publicações sobre suicídio, maior o índice de casos ocorridos (num curto período de tempo) subsequentemente às publicações. Essas notícias também foram mais prováveis de estar na primeira página, fornecendo detalhes sobre o caso e o método utilizado pelo indivíduo para cometer o ato, além de possuírem conteúdo mais especifico em vez de sobre o tema suicídio em geral. Apesar de o estudo não afirmar que publicações sobre suicídio causam suicídios subsequentes, os achados dão suporte à interpretação de que as publicações da mídia sobre suicídio podem ter um papel na emergência de alguns casos de suicídio entre adolescentes. Os autores ainda recomendam cautela, uma vez que o suicídio constitui-se um tema complexo envolvendo um grande número de variáveis, podendo a exposição a este tipo de noticiário ser uma delas.

O assunto se agrava nas redes sociais. Usuários publicam fotos e vídeos de pessoas que morreram por suicídio ou tentaram o ato. Na capital capixaba, por exemplo, os índices oficiais de morte de pessoas na principal ponte que liga a ilha ao continente não são divulgados à comunidade científica; mas a notificação popular das ocorrências é de frequência tão alta que sua transmissão via redes sociais ultrapassa limites de respeito e preocupação quanto aos riscos de epidemia. Uma fan page no Facebook intitulada “Vitórianha Deprê”, publicou/reproduziu para seus mais de 26.600 seguidores uma foto da referida ponte com um texto intitulado “Manual do Suicida Capixaba”, no qual o autor ensina os passos para cumprir com sucesso uma tentativa de suicídio. Junto à foto seguem comentários de deboche e desrespeito às pessoas que “interrompem o trânsito” por não concluírem a tentativa. “O que mais me dá ódio é quando o elemento fica fazendo cena lá em cima e não pula. Quem quer se matar chega e pula de vez. Me dá vontade de ir lá e empurrar”, afirma uma seguidora da fan page. A postagem foi removida da rede social.

Em entrevista concedida ao The Lancet Psychiatry, o Professor Rory O’Connor, presidente da International Academy for Suicide Research e professor pesquisador da Universidade de Glasgow, afirmou que uma de suas pesquisas sobre automutilação entre adolescentes (O’Connor, Rasmussen, & Hawton, 2014) indicou que aproximadamente 20% dos adolescentes que participaram do estudo afirmaram explicitamente que a internet e as mídias sociais influenciaram a decisão de engajarem-se em comportamentos autolesivos. De acordo com o professor O’Connor, um terço dos adolescentes que possuem ideações suicidas engaja-se no estágio seguinte (a tentativa de retirar a própria vida) e há diversos fatores que contribuem para esta transição (ideações-tentativas), sendo a difusão de informações sobre casos de suicídio um forte fator de influência.

Recentemente, a morte do ator norte-americano Robin Williams reacendeu a discussão sobre o tema. No dia 12 de agosto de 2014, The Academy of Motion Picture Arts & Sciences (instituição norte-americana responsável pela premiação do Oscar) publicou no Twitter uma homenagem ao ator com uma foto do gênio da lâmpada do desenho animado Aladdin (Disney), já que Williams dublou a voz do personagem para a língua inglesa. O problema foi a legenda da imagem: “Gênio, você está livre!”. Diversos pesquisadores criticaram a legenda, uma vez que a mensagem aponta indiretamente o suicídio como uma espécie de livramento, uma possibilidade para quem sofre e vive circunstâncias semelhantes às do ator. No site do Laboratório de Pesquisas sobre Comportamento Suicida, liderado pelo professor O’Connor na Universidade de Glasgow, foi publicado um pequeno texto de advertência sobre os riscos envolvidos neste tipo de mensagem. “Quando alguém está em desespero, publicações ou mensagens insensíveis e inapropriadas podem ser desencadeadoras de algo pior para eles, especialmente aqueles que estão em situação mais vulnerável. Por esta razão temos de tomar cuidado ao relatar casos de suicídio”, afirma Rory O’Connor .

Mas o que reportar?

Apesar de ainda ser um tabu, o tema suicídio precisa ser alvo de conversa, discussão. Há, entretanto, sugestões éticas para publicação. Diversas instituições na Europa e na América do Norte possuem guias com dicas do que publicar e de como abordar o tema nos veículos de comunicação. A Organização Mundial de Saúde é uma delas e a publicação possui uma versão em língua portuguesa: “Prevenção do Suicídio: Um Manual para Profissionais da Mídia” [2]. Há também um excelente guia dirigido a profissionais da imprensa elaborado pela Associação Brasileira de Psiquiatria, “Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir” [3].

Este é um tema delicado. Como mencionado anteriormente, não há “uma causa”, mas um conjunto de fatores envolvidos e demanda aprofundamento. Este é o primeiro de vários textos que publicaremos sobre o assunto aqui no Comportamento & Sociedade a fim de entender melhor sobre o tema e que tipos de pesquisas tem sido realizadas nas mais diversas áreas do conhecimento. Participe enviando perguntas, comentários, críticas ou sugestões.

*Se você está vivendo um momento muito difícil e se identificou com alguma parte deste texto, converse agora com um profissional do CVV (Centro de Valorização da Vida) através do telefone 141 ou via internet (chat, Skype ou email) através do site: http://www.cvv.org.br/site/index.php. Os profissionais desta ONG (uma das mais antigas e reconhecidas instituições no país) estão disponíveis 24 horas para ajudar e acolher.

——

Notas:

1. Entrevista em formato Podcast, disponível em: http://www.thelancet.com/lanpsy-audio
2. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/67604/7/WHO_MNH_MBD_00.2_por.pdf?ua=1
3. Disponível em: http://www.fundacaobunge.org.br/uploads/jornal_cidadania/cartilhasuicidio_2009_light.pdf

Referências

Botega, N. (2010). Comportamento suicida em números. Revista Debates Em Psiquiatria, 11–15. Retrieved from http://www.abp.org.br/download/PSQDebates_7_Janeiro_Fevereiro_light.pdf

Gould, M. S., Kleinman, M. H., Lake, A. M., Forman, J., & Midle, J. B. (2014). Newspaper coverage of suicide and initiation of suicide clusters in teenagers in the USA, 1988–96: a retrospective, population-based, case-control study. The Lancet Psychiatry, 1(1), 34–43. doi:10.1016/S2215-0366(14)70225-1

Nock, M. K., Borges, G., Bromet, E. J., Cha, C. B., Kessler, R. C., & Lee, S. (2008). Suicide and suicidal behavior. Epidemiologic Reviews, 30, 133–54. doi:10.1093/epirev/mxn002

O’Connor, R. C., & Nock, M. K. (2014). The psychology of suicidal behaviour. The Lancet Psychiatry, 1(1), 73–85. doi:10.1016/S2215-0366(14)70222-6

O’Connor, R. C., Rasmussen, S., & Hawton, K. (2014). Adolescent self-harm: a school-based study in Northern Ireland. Journal of Affective Disorders, 159, 46–52. doi:10.1016/j.jad.2014.02.015

Como citar este texto:

APA (6th Edition):

Zortea, T. C. (2014, Agosto 26). Suicídio, mídia e epidemia. [Web log message] Recuperado de: http://comportamentoesociedade.com.

ABNT:

ZORTEA, T. C. Suicídio, mídia e epidemia. Edinburgh, 2014. Disponível em: <http://comportamentoesociedade.com&gt;. Acesso em: DD Mmm AAAA.

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