“Ó, vou contar para o seu pai quando ele chegar, hein!”

Picture by Lay Santana

Alguém aí já ouviu esta frase? É típica de algumas mães. Poucas talvez, algum dia não disseram isso! E esta frase evidencia a dificuldade da mãe em lidar com algum comportamento inadequado do filho. É natural que sentenças como essas sejam proferidas em meio à variação comportamental da mãe, quando suas tentativas de cessar as atitudes inadequadas da criança não produzem o efeito desejado, isto é, não são negativamente reforçadas. As coisas começam a complicar quando esta frase se repete. E se ela se repete é porque, em geral, a criança cessou a emissão de seus comportamentos inadequados ao ouvi-la. Quero listar algumas possíveis [1] consequências que podem decorrer do uso de frases como esta.

  1. Autoridade/credibilidade materna. Ao dizer isso, a mãe transfere sua responsabilidade de educar para o pai e está, por outras vias, evidenciando sua inabilidade em lidar com as travessuras de seu filho. Está dizendo a ele que somente o pai possui essas habilidades, e que, em certa medida, a criança deve respeitar somente o pai. Uma das mensagens embutidas no uso desta frase é: “A única pessoa que possui autoridade aqui é seu pai, e não eu. É nele que você deve confiar e temer, pois ele sabe resolver as questões difíceis de lidar. Não deposite em mim a confiança para resolver problemas difíceis, pois eu sempre fugirei da responsabilidade”. É possível que a criança perca a credibilidade na mãe e passe a desobedecê-la com uma frequência mais alta.
  2. Medo do pai. Quando a mãe diz ao filho que vai dizer ao pai o que ele está fazendo de errado, ela também está dizendo que o pai deve ser alguém a quem o filho deve temer. Fazendo isso, a mãe contribuirá para que a relação entre pai e filho seja pautada no medo, e não no amor. Se o modo como o pai se relaciona com a criança, de um modo geral, for coercitivo, as coisas podem piorar ainda mais, pois a frase usada pela mãe terá um poder muito maior sobre o comportamento da criança. Esta contingência sinaliza um aversivo que supostamente está por vir, situação ideal para a eliciação de respondentes de ansiedade e medo. Ansiedade é um tipo de sentimento que está presente numa situação em que sinais “pré-aversivos” são emitidos no ambiente do sujeito, evocando comportamentos com função de esquiva (evitação) daquilo que não existe de fato, mas que pode vir a ocorrer. Assim, quando o pai (que não estando presente) é citado principalmente nos momentos em que a criança se comporta inadequadamente, faz-se um processo de estabelecimentos de relações de sentido “fazer o errado – pai – punição – medo – vigilância”.
  3. Criança ansiosa. Esta questão está totalmente relacionada à anterior (medo do pai). Quando o filho mora numa família em que as relações são pautadas pelo medo, está estabelecida então uma condição apropriada para o desenvolvimento de uma pessoa ansiosa, “esquivadora”. Crianças com esse tipo de repertório comportamental podem desenvolver o que chamamos por “generalização de estímulos” e emitir comportamentos de evitação em outros ambientes. Isto significa uma criança que apresenta medo de arriscar, que evita situações que demandam dela comportamentos mais “ousados”. Tomar decisões no futuro pode ser uma tarefa difícil, principalmente se envolver relações interpessoais.
  4. Visão de homem e mulher. Em certa medida, é possível que o uso desta frase pela mãe possa contribuir para a construção de uma visão futura sobre homens e mulheres. É importante ressaltar que apesar de termos falado de pais e mães, o uso desta frase-chave pode ser feito por qualquer um dos pais. Há famílias em que a mãe possui uma postura mais ativa, e quem se exime da responsabilidade de lidar com as respostas inadequadas da criança é o pai. De todo modo, independente de qual responsável use esta frase, uma mensagem sobre homens e mulheres pode estar sendo transmitida. Se a mãe diz “Ó, vou contar para o seu pai quando ele chegar, hein!” e transfere sua responsabilidade, baseado no ponto 1 deste texto, ela está ensinando ao filho que os homens conseguem resolver a questão. Que as mulheres não são capazes de lidar com situações difíceis de serem resolvidas e que, portanto, não devem receber credibilidade e confiança na hora de lidar com um problema. Isso pode até se desdobrar para relacionamentos futuros. O mesmo acontecerá com a visão de homem. Somente os homens dão conta de resolver problemas; homens são responsáveis; homens devem estabelecer suas relações com base no medo.

Torna-se importante mencionar que essas anotações são possibilidades. No entanto, creio que sejam suficientemente importantes para analisarmos o que falamos com os nossos filhos. Mas então, o que dizer para eles em lugar da frase analisada? Quando uma criança emite um comportamento inadequado, é importante corrigir com firmeza (e não violência!) o comportamento da criança (e não a pessoa da criança). É preciso explicá-la em sua linguagem que o que ela fez não é aceitável e que não deverá acontecer de novo. Se a criança desobedece e emite variações comportamentais de agressão isto evidencia que há outras questões a serem trabalhadas na relação pais-crianças. Essa relação é bastante complexa e conversaremos sobre seus constituintes ao longo das diversas postagens.


[1] Nada de pré-determinismos, ok?

Como citar este texto:

APA (6th Edition):

Zortea, T. C. (2013, Janeiro 22). Ó, vou contar para o seu pai quando ele chegar, hein! [Web log message] Recuperado de: http://comportamentoesociedade.com.

 ABNT:

 ZORTEA, T. C. Ó, vou contar para o seu pai quando ele chegar, hein!. Vitória, 2013. Disponível em: <http://comportamentoesociedade.com&gt;. Acesso em: 22 Jan. 2013.

 Para ter acesso a esse texto no formato PDF, clique aqui!

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2 thoughts on ““Ó, vou contar para o seu pai quando ele chegar, hein!”

  1. Olá Thiago, achei muito bom o seu texto, ele me trouxe algumas lembranças da infância que impactam até hoje no meu modo de ser e agir. Eu sou a mais velha de 4 filhas e me lembro bem que quando fazia alguma coisa errada, minha mãe sempre falava: – Cuidado suas irmãs vão aprender a fazer isso também. Você tem que ser exemplo para elas. Isso me fez amadurecer muito rápido e perder a infância. A todo o tempo eu me perguntava se o que estava fazendo era certo ou errado, e o que é que eu estava ensinando as minhas irmãs. Hoje elas me acham muito chata e com mania de pessoas idosas, sempre certinha, pronta para dar um sabão e apenas apontar os erros. Sofro até hoje com isso, pois além delas, me preocupo com tudo o que vão pensar de mim, não só elas, mas qualquer conhecido. Sou muito ansiosa, tenho sind. do pânico e procuro sempre fazer tudo certo. Fico muito chateada e chego a passar mal se alguma coisa foge ao meu controle. Sempre acho que as pessoas estão olhando para mim, fazendo uma avaliação, para saber se o que estou fazendo é certo ou errado, e qual está sendo meu exemplo.

    Percebi também que sem querer acabei fazendo o mesmo com minha filha. Hoje ela está com 8 anos e é filha única. Não tem obrigação de ensinar nada as irmãs, mas sempre chamo atenção dela falando sobre o que os outros vão pensar. Ela está sempre preocupada com isso, procura sempre ser certinha, todas as pessoas que a conhecem a acham linda e muito educada, mas em casa ela está sempre pronta a explodir, como ela não pode fazer isso com os outros, acaba descontando nas pessoas de casa. Vejo que ela está sempre preocupada com coisas muito além da idade dela e sofre com ansiedade.

    Depois de ler seu texto, vou achar uma forma de trata-lá de modo diferente, para ver se ainda dá tempo de evitar que ela tenha o mesmo problema que eu.

    Renata Sathler

    • Oi Renata,

      Precisamos sempre realmente repensar nosso modo de vida, pois é no cotidiano – de modo imperceptível – que nos construímos. Há também um outro texto do site que aborda questões como esta a que você se refere: “O que os vizinhos vão pensar?” que vale à pena dar uma olhada!

      Obrigado por acompanhar as publicações por aqui e conto com suas críticas, ideias e sugestões, ok?

      Um grande abraço!

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